O capitalismo passou por profundas transformações com o fim da clara
dualidade entre capitalistas e uma massa homogênea de operários.
Atualmente, nota-se um conjunto muito heterogêneo de trabalhadores, não
apenas em suas características produtivas, mas também porque esses
trabalhadores passaram a competir entre si por ascensão profissional e
financeira. Neste novo contexto, os mercados de trabalho
transformaram-se em verdadeiras loterias ou cassinos nos quais os
trabalhadores apostavam investimentos em capital humano com objetivo de
se tornarem vencedores. Tais investimentos são os bilhetes desta loteria
ou as fichas deste cassino. Contudo, exatamente como em uma loteria ou
em um cassino haverá, necessariamente, vencedores e perdedores. Assim,
os trabalhadores de baixa qualificação ou de pequeno estoque de capital
humano são, a priori, perdedores, pois encontram-se excluídos de tal
loteria. Como decorrência desta nova estrutura do mercado de trabalho
capitalista, em que os vencedores se apropriam do trabalho dos
perdedores, surge uma nova forma de exploração do trabalho na qual o
instrumento passa a ser o capital humano, em semelhança àquela
tradicional do capital físico, descrita por Marx, que reforça a
tendência inerente de geração de desigualdades por parte do sistema
econômico capitalista. Do ponto de vista de políticas públicas, essa
situação coloca limites na democratização do investimento em capital
humano como forma de combate à desigualdade, pois o mercado de trabalho
está estruturado para que existam vencedores e perdedores. A igualdade
de capital humano permite apenas a mesma quantidade de fichas no
cassino. O combate à desigualdade não é um mero problema de
democratização da educação, sendo, em algum grau, resultado inerente da
economia capitalista. Embora a democratização do capital humano seja
necessária para a redução da desigualdade, ela é insuficiente. O
crescimento econômico também tem limitações no combate à desigualdade na
medida em que o incentivo microeconômico, que gera o crescimento
macroeconômico, é a busca pela desigualdade. Diante dessa nova visão, o
combate à desigualdade exige uma nova organização do mercado de trabalho
capitalista, assim como a mudança de relação entre crescimento
macroeconômico e igualdade microeconômica exige alterações no
comportamento individual que motiva o referido crescimento.
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